Frota de motos cresce 65% no Rio em 10 anos e muda a mobilidade da cidade; veja por quê
Frota de motos cresce 65% no Rio em 10 anos e muda a mobilidade da cidade; veja por quê As motos tomaram conta das ruas do Rio — e isso diz muito sobre a cid...
Frota de motos cresce 65% no Rio em 10 anos e muda a mobilidade da cidade; veja por quê As motos tomaram conta das ruas do Rio — e isso diz muito sobre a cidade. O avanço das motocicletas transformou o trânsito, criou uma nova fonte de renda para milhares de pessoas e mudou a forma como os cariocas se deslocam. Mas também trouxe mais acidentes, conflitos no trânsito e um novo desafio para o poder público. A primeira reportagem de uma série especial do RJ2 sobre o avanço das motocicletas no Rio mostra que esse crescimento – alta de 65,7% da frota em 10 anos, contra 18,7% de carros (veja abaixo) – não aconteceu por acaso. Em uma cidade marcada por congestionamentos, transporte público considerado ineficiente por muitos usuários e longos deslocamentos diários, a moto passou a representar economia de tempo — e, em muitos casos, também de dinheiro. Mais rápido e mais barato "O transporte mais rápido". Essa é a justificativa repetida por passageiros acompanhados pela reportagem ao longo de um dia de trabalho de motociclistas que atuam por aplicativos. Muitos usam a moto como complemento ao trem, metrô ou ônibus. Outros trocaram completamente o transporte coletivo pelas duas rodas. É o caso da auxiliar de cozinha Priscila Mariana Pereira. Moradora de Belford Roxo, ela conta que, quando a corrida está barata, prefere pedir uma moto a esperar o ônibus. "Deu R$ 3 e pouco. Vale a pena. Até ficar no ponto esperando o ônibus, que é R$ 5, prefiro pegar moto." A garçonete Rafaela Natanael também diz que opta pela motocicleta por considerar o deslocamento mais rápido e mais seguro em relação ao assédio que já sofreu em outros meios de transporte. Acidentes com motos aumentam no RJ; 7 em cada 10 vítimas atendidas em hospitais municipais estavam em motocicletas Acidentes com motociclistas disparam no Rio e pressionam rede pública de saúde Aumento da frota Alta de motos no RJ Reprodução/TV Globo Os números mostram que o fenômeno ganhou força principalmente depois da pandemia. Entre 2016 e abril deste ano, o número de motocicletas registradas no estado do Rio cresceu 65,7%, passando de cerca de 890 mil para 1,46 milhão. No mesmo período, a frota de carros aumentou 18,4%. Os dados são do Ministério dos Transportes. Os dados do Detran também mostram uma aceleração recente dos emplacamentos. Em 2020, havia licenciadas 354 mil motocicletas novas. Em maio deste ano, o número subiu para 514 mil motos registradas na cidade. Ligação com o transporte público Rio viu a frota de motos aumentar muito além dos carros Reprodução/TV Globo Especialistas afirmam que, inicialmente, as motos preenchiam a chamada "primeira e última milha" — levando passageiros entre casa e estações de trem, metrô ou ônibus. Hoje, segundo a pesquisadora Clarisse Cunha Linke, essa função mudou. "Com a entrada dos aplicativos, a moto também começa a substituir o transporte público no porta a porta. Por uma questão de tempo, custo e segurança. Ela acaba sendo uma alternativa a um sistema que é caro, inseguro e que não oferece previsibilidade." Dados das duas maiores plataformas de transporte por moto mostram que os principais embarques e desembarques acontecem justamente em terminais de ônibus, trem e metrô. Os horários de maior demanda coincidem com o início e o fim do expediente: entre 7h e 8h e entre 17h e 18h. A pressa de quem trabalha A reportagem acompanhou o dia de dois motociclistas por aplicativo. Carlos Eduardo Fonseca trabalha desde cedo e calcula a renda corrida por corrida: "O tempo inteiro correndo contra o tempo." Já Rômulo Moraes encontrou na moto uma saída depois de perder o emprego como motorista de caminhão. Trabalha, em média, das 7h às 19h e diz que consegue faturar cerca de R$ 6 mil por mês antes dos custos quando mantém uma rotina intensa de trabalho. "Era o que eu tinha no momento. Era a minha moto." Ao mesmo tempo, reconhece os riscos da profissão: "A gente sai de casa sem saber se vai voltar." O retrato da desigualdade Para pesquisadores, o crescimento das motos revela problemas mais profundos da mobilidade urbana. Segundo Clarisse Cunha Linke, quem migra para esse tipo de transporte o faz porque precisa economizar tempo e dinheiro. "O deslocamento por moto é um retrato bem evidente da desigualdade social brasileira. Quem mais sofre e quem mais está em risco é justamente a população de baixa renda, preta e periférica."