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Eliana Alves Cruz relança 'O crime do Cais do Valongo' e anuncia série que investiga crimes e 'roubos' do período colonial

Eliana Alves Cruz relança livro e inaugura série sobre crimes da colonização A escritora Eliana Alves Cruz relança o livro O crime do Cais do Valongo em um...

Eliana Alves Cruz relança 'O crime do Cais do Valongo' e anuncia série que investiga crimes e 'roubos' do período colonial
Eliana Alves Cruz relança 'O crime do Cais do Valongo' e anuncia série que investiga crimes e 'roubos' do período colonial (Foto: Reprodução)

Eliana Alves Cruz relança livro e inaugura série sobre crimes da colonização A escritora Eliana Alves Cruz relança o livro O crime do Cais do Valongo em um evento em Niterói, na Região Metropolitana do Rio, neste sábado (15). A obra, lançada há oito anos, ganha uma nova edição e passa a ser o primeiro livro de uma série chamada Crimes Coloniais. A Feirinha Literária de Santa Rita recebe a nova edição, que será apresentada em um bate-papo com a autora seguido de sessão de autógrafos. Em entrevista ao g1, Eliana contou que o segundo livro da série já está pronto e deve ser publicado no primeiro trimestre de 2027. A nova história tem como tema central o “roubo” e traz Nuno Moutinho, personagem de O crime do Cais do Valongo, como detetive de crimes ambientados no período colonial (leia a entrevista completa com a explicação da autora abaixo) 🟩O g1 Rio está no GloboPop, o novo aplicativo de vídeos curtos verticais da Globo, disponível gratuitamente no seu celular. Lá no app, você pode seguir o palco do g1 Rio para não perder nenhum episódio. Baixe o GloboPop. O relançamento acontece no ano em que a autora completa dez anos da publicação de Água de Barrela, livro que narra a trajetória de sua família ao longo de gerações. Foi durante as pesquisas para escrever a obra que Eliana se deparou com a história do Cais do Valongo. Como você chegou à história do Cais do Valongo? "O crime do Cais do Valongo deriva do meu primeiro livro, Água de Barrela. Eu precisei pesquisar muito para entender esse período histórico no Brasil e no mundo. Nessas pesquisas, de vez em quando aparecia o Valongo, porque eu fui mergulhar na história de alguns escravocratas do Recôncavo e, às vezes, eles vinham comprar coisas no Valongo — e pessoas. Coincidiu com a época em que o Rio estava passando por muitas obras por conta dos grandes eventos. Os objetos do Valongo começaram a aparecer com mais intensidade. Começaram a aparecer cachimbos, contas, pedaços de louça, e aquilo me fascinou. “Meu Deus, que lugar é esse que o Brasil pouco conhece?” Comecei a estudar e fui parar no departamento de arqueologia da UERJ. Um dia, durante as férias, me vi lá perguntando. E entendi que ali tinha uma história. Não cabia no Água de Barrela, mas cabia para outra história." Eliana Alves Cruz e a capa do livro relançado Giovanna Américo/g1 O que fez você voltar a O crime do Cais do Valongo agora, oito anos depois do lançamento? "Em 2024, conversando com meu companheiro, o escritor Estevão Ribeiro, a gente estava falando sobre o livro. Eu estava escrevendo uma outra história, infantil, e essa história tinha alguns elementos de cultura popular. Surgiu a ideia: por que a gente não aprofunda mais essa história? Por que não temos esse personagem que é um detetive que investiga esse período do Brasil, o período colonial e imperial? Daí surgiu a ideia de estender O crime do Cais do Valongo, de relançar o livro e transformá-lo em uma série. Trazer outros aspectos com esses mesmos personagens como detetives. É um detetive muito improvável." Por que você decidiu colocar uma pessoa negra no papel de detetive? "A gente tem pessoas negras sempre como as criminosas ou como o alvo da desconfiança, ou os detetives sempre são brancos. Então, por que não inverter? Por que não colocar uma pessoa negra investigando aqueles crimes que habitualmente a gente confere a pessoas negras? Por que não trazer um outro aspecto da história? Está sendo muito divertido escrever. Estou estudando bastante o Valongo, já descobri outras tantas coisas e acho que tem material para muitos livros e muitas histórias." E qual é o DNA de Crimes Coloniais? "O nome já diz: Crimes Coloniais. É justamente investigar aquilo que está tão naturalizado que a gente não vê como crime, mas que tem origem em um crime histórico. A escravidão toda é um grande crime. O tráfico transatlântico foi o maior crime da humanidade. Se a gente for começar no elástico do tempo, desde o século XV se escravizam pessoas negras para as colônias e para a Europa. Eliana Alves Cruz relança 'O crime do Cais do Valongo' e anuncia série que investiga crimes e 'roubos' do período colonial Giovanna Americo/g1 É muito tempo que movimentou uma diáspora espalhada por todos os continentes. A série pretende investigar isso: quem são essas pessoas, o que faziam, que crimes são esses? Falar de tudo que nos foi roubado. Roubos materiais concretos e roubos simbólicos também. Roubo de vida, roubo de tempo de vida, roubo de saúde, roubo emocional, roubo afetivo, roubo de identidade. Roubo da humanidade. Do direito à humanidade dessas pessoas, que foram animalizadas durante muito tempo. E é impossível não fazer a conexão com o que a gente vive. A gente rouba ainda. A gente rouba cultura, a gente rouba fazeres, a gente rouba ciência, a gente rouba filosofia, a gente rouba humanidade também das pessoas, que são animalizadas ainda hoje, em 2026. São olhadas como dignas de menos direitos do que outras." A pesquisa histórica é uma parte muito importante da sua escrita. O que o jornalismo trouxe para esse processo? "Acho que trouxe o desejo e a necessidade de apurar, de buscar a veracidade, o máximo que a gente consegue. Entender o que é fato, o que é boato, fazer o fact-check, checar os fatos, olhar o pensamento da época. Eu gosto muito de pesquisar os jornais de época. Para O crime do Cais do Valongo, eles foram uma grande fonte de pesquisa. Quando a gente coloca a lupa e vai olhar as formas como se tratava a mulher, a infância, quem era criança, o que significava ter dinheiro, o que significava ser pobre nessa época, você encontra muita coisa. A Gazeta do Rio de Janeiro, por exemplo, era um jornal muito chapa branca para falar da coroa, mas tinha uma sessão de avisos que funcionava como os classificados. Ali tinha um retrato do que aquela sociedade era: venda de casas, leilões, movimento de navios, busca, compra, venda e procura de pessoas escravizadas." Você acha que a literatura consegue preencher algumas lacunas da história que é ensinada nas escolas? "A escola tem limitações. A escola não dá conta de contar tudo que aconteceu aqui. Então acho que a literatura tem uma oportunidade de ficcionalizar. Óbvio que é ficção. As pessoas não vão pegar isso para estudar para o Enem ou para uma prova de História, porque a gente cria muita coisa. Mas é algo que te instiga a querer saber sobre a história e aí sim te leva para a matéria História, para ler sobre o período em fontes confiáveis. Acho que é poderoso nesse lugar." Você também fala sobre a necessidade de recuperar diferentes origens africanas. Por que isso é importante? "O Rio é muito moçambicano, angolano. Nós temos mais ligações com Angola do que muitos países europeus e não sabemos nada sobre isso. A gente vai ao Arquivo Nacional e encontra documentos de apreensão de navios negreiros. Vai ver a descrição das pessoas: Cabinda, Malê, Banto, todos vindos de Angola, Moçambique. Por que a gente não tem esses lugares de uma forma mais presente na nossa cultura e laços com esses países? Tudo fala sobre nós, sobre como apagamos nações inteiras numa construção de um Brasil que não é muito real. É uma invenção que não honra essa ancestralidade." Você completa dez anos da publicação de Água de Barrela. Como olha para essa década de carreira literária? "Eu acho que eu sou outra pessoa. Acho que sou antes e depois da escrita e da publicação dos livros. Eu considero que tenho mais de 40 anos de carreira, porque comecei a escrever um livro com 18 anos e esse livro só foi publicado em 2023. O que aconteceu nesse meio-tempo? Toda uma tragédia de vida, de coisas que me roubaram o direito de publicar, que me roubaram a autoestima necessária para brigar por esse lugar, sentar nessa cadeira de escritora. Me roubaram tempo para isso, ânimo. Enfim, muitos roubos. Então estou resgatando essa escritura que ficou lá aos 18 anos e acho que a solidifico nesses últimos dez anos com esses lançamentos todos. Por isso acho que escrevo tanto, porque fiquei 40 anos da minha vida fermentando tudo isso dentro de mim e hoje produzo demais porque tenho essa urgência de resgatar um tempo que não foi perdido, foi necessário para que hoje eu seja a pessoa que sou." O que você quer deixar para as próximas gerações? "Eu penso na minha vida para além de mim. Eu não vou ficar aqui para sempre. Então penso em deixar alguma coisa não só para os meus filhos, mas para as gerações futuras, para que construam outros imaginários. Eu me vejo uma pessoa que amadureceu muito, que está sempre em busca de se desafiar na escrita, de autocrítica. Hoje sou uma escritora que consegue não ficar presa a uma fórmula. Vario muito de tema, vario muito no estilo de escrever, porque são experimentações que faço." Como você enxerga o papel da literatura no combate ao racismo? "A literatura não tem esse poder de 'meu Deus, vai mudar, fazer uma revolução'. A literatura tem um poder muito privado. É você e o livro, é você e aquela história, é você e a sua história em confronto com aquela história. Ela tem um poder do miúdo, das pedras miudinhas. E acho que é esse miúdo que muda um cenário. Quando a gente começa a entrar nessa história e mergulhar, algumas luzes vão se acendendo e a gente vai fazendo as conexões, entende que o que vivemos hoje é consequência de uma série de coisas que nos aconteceram e acontecem. Aí a gente começa a fazer essa revolução. A arte, de um modo geral, ajuda o ser humano a sair do automático e pensar. A gente precisa questionar a vida, colocar lupa em aspectos da nossa trajetória e questionar também o que estamos fazendo. Quando você dá rosto, dá enredo, dá história, a gente consegue exercitar essa reflexão. Acho que a literatura é parte disso."

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